quarta-feira, 21 de março de 2012

OLHOS-DE-GATO



OLHOS-DE-GATO

Estava um dia de Primavera sorridente e bem-disposta. Pelas portadas abertas da casa em que vivíamos, em Vila da Ponte, entrava um ar morno, perfumado com odores da Natureza, que despertara com energia do sono do Inverno, e musicado com cânticos da passarada, que festejava a Primavera com euforia.
Mas, no meio desta suavidade e harmonia, ouvia-se um ruído ritmado: poc… pac… poc… pac… Fiquei curiosa e dirigi-me à varanda. Tinha, então, 6 anos e, colocando a cabecita entre duas grades, espreitei para a rua, procurando descobrir a origem do som cadenciado. Quase ao nível da varanda, um homem, em cima de uma camioneta carregada de lenha, lançava cavacos para o chão, poc, pac, enquanto outros dois, um dos quais o meu pai, os transportavam para a nossa garagem.
Eu observava, muito entretida, aquele trabalho em cadeia. Subitamente, o homem olhou para a varanda. Admirado com a minha presença silenciosa, sorriu e brindou-me com um piropo:
- Olá! Que linda menina, russinha, com olhos-de-gato!
Olhei-o, surpreendida e, indignada, retribuí o piropo:
- E tu, tens olhos-de-cão?
O homem deu uma gargalhada, achando graça à resposta. Mas a minha mãe, que tinha ouvido o diálogo, é que não achou graça nenhuma e repreendeu-me imediatamente:
- Mas, que modos são esses? Que falta de educação!
Eu procurei logo defender-me:
- Foi ele que começou. Disse-me que tinha olhos-de-gato.
A minha mãe, zangada, não valorizou a minha defesa e sentenciou:
- E depois? O senhor estava a brincar contigo… E não se responde torto às pessoas mais velhas. Devemos sempre respeitar os mais velhos. Se voltares a fazer o mesmo, ficas de castigo! Além do mais, ninguém gosta de meninas mal-educadas.
Aquela última frase acertou-me em cheio, eu já sabia que a falta de educação era uma coisa grave. E calei-me, pois no meu tempo de menina, obedecia-se aos pais… Contudo fiquei a minhocar no assunto. “Russinha, com olhos-de-gato…”. Parvalhão! Ainda “russinha”, enfim, percebia-se… eu tinha cabelo louro claro! Mas “olhos-de-gato”! Porquê?! Eu tinha olhos azuis e os gatos que eu conhecia tinham olhos esverdeados, de um verde-amarelado, talvez.
A minha mãe saiu da sala e eu chamei imediatamente o Tareco, o nosso gato.
O Tareco apareceu, pachorrento, deslocando, com muita lentidão, o seu corpo peludo, branco. Abeirei-me dele, sentei-me no chão e olhei-o fixamente nos olhos, receando descobrir neles alguma semelhança. Mas não! Eram de tom verde-claro, redondos. Ora, os meus eram azuis e ovais. Essa agora, onde estava a semelhança?!

Mas resolvi confirmar:
- Tareco, achas os meus olhos parecidos com os teus? – perguntei ansiosa.
- Não sei, nunca vi os meus! – miou em resposta.
- Bem, mas já viste os da Boneca, a tua namorada… São iguais aos meus?
- Ah, não! – miou negativamente – Os dela são mais bonitos!
- Palerma! Nem tu me compreendes!
Deixei-o parado na sala, com uns miados espantados: “Miau?! Miau?!”, e saí disparada, furiosa.
Confesso que transportei esta dúvida durante bastante tempo.
Até que um dia, andava eu na 4ª classe, em casa de uns amigos dos meus pais, no Porto, deparei com um gato de cor creme e, pasme-se, de olhos azuis! Atordoada e confusa, gaguejei:
- Ou… ouve lá, que espécie de gato és tu?
- Sou um gato Siamês, uma raça nobre, originária da Tailândia. – respondeu, altivo – Somos raros e pouco conhecidos – acrescentou com ar aristocrático.
- Da Tailândia?! – espantei-me.
- Sim, um país do Oriente, que fica para os lados da China, do Laos…
Antipatizei logo com ele: primeiro, porque estava ali o verdadeiro culpado da expressão que eu detestava – “olhos-de-gato”; segundo, porque tinha um ar muito empertigado e arrogante, de focinho empinado.
Lembrei-me, então, de Darwin, um cientista inglês, que defendia que as espécies se iam transformando ao longo dos tempos… E pensei: “Será que sou descendente desta raça de gatos? Ainda por cima de um gato aristocrático, antipático! Isso não me agrada!”
Bom, passados muitos anos, este aspecto já não me preocupa, como é evidente! Mas guardo a lição da minha mãe e agradeço-lhe muito a educação que me deu, seguramente, o maior tesouro que me deixa!

E agora…

Já não me importa ter olhos-de-gato
De cão, de coelho ou de pato!

Só não quero ser como o Siamês
Que é todo altivo, nariz empinado
Cheio de manias e não é cortês
Pois eu quero ser bem-educado!

E dos nossos olhos, o que interessa a cor?
Sejam verdes, azuis, castanhos, escuros
O que mais importa é que sejam puros
E olhem o mundo com imenso amor!

Com a minha mãe, aprendi a lição
O valor que tem a educação
Na vida será o maior tesouro
Vale mais que a prata e o fino ouro!

Já não me importa ter olhos-de-gato
De cão, de coelho ou de pato!

Lídia Valadares

2 comentários:

Anónimo disse...

Eu gostei muito da visita da senhora professora Lídia Valadares.
O texto era muito bonito e descobri o que significava a expressão:- "Olhos de gato".



José Pedro 5º6, nº17

samanta disse...

Este texto está fabuloso e muito criativo.O poema está também muito bonito.Ou os meus parabéns à senhora professora Lídia Valadares.
bj samanata