domingo, 15 de abril de 2012

Texto escrito pela professora Isilda Afonso




De repente, um Amigo…


Um dia, de muito nevoeiro e frio, quando a Rita regressava a casa, ouviu uns latidos muito fraquinhos que vinham detrás da sebe do jardim municipal. Aproximou-se devagarinho, sem fazer barulho, espreitou cheia de curiosidade e o que viu? Um cãozito de grandes orelhas, patas pequenas, pelo tão comprido e encaracolado que tocaria o chão, mesmo quando estivesse apoiado nas suas quatro patas. Os olhos e o nariz eram igualmente pequeninos. Mas, o que logo fascinou a Rita foi a expressão dos seus olhos. Uma expressão linda de morrer e tão enigmática. Parecia que estava com frio ao mesmo tempo que parecia que queria que a Rita pensasse que estava quentinho; parecia que estava com fome, ao mesmo tempo que dava a entender à Rita que estava saciado. Enfim, parecia que pedia ajuda sem a pedir, se é que entendem! A Rita tinha ficado encantada com aquela expressão e não hesitou em pegar nele ao colo, aconchegá-lo e levá-lo para sua casa. Tinha a certeza que sua mãe haveria de perceber e ficar também seduzida pelo Bolinha. É verdade, tinha acabado de lhe dar um nome.
Deu-lhe banho, de comer, deitou-o no tapete do seu quarto cobriu-o com um cobertor. O Bolinha adormeceu logo, com um rosto lindo de morrer que parecia dizer, obrigado. Também a Rita dormiu como um passarinho feliz, a pensar nas brincadeiras que iriam fazer juntos.
Acordou sobressaltada ao ouvir chamar pelo seu nome. Não conhecia aquela voz. Levantou a cabeça e nem queria acreditar, era o seu lanzudinho de patinhas no ar e, pasmem! . . . a falar e a chamar por si. Como era possível? Este cão era muito diferente dos outros, até sabia falar.
- Tenho de te agradecer tudo o que fizeste por mim. Hoje, os animais são muito maltratados. Até mesmo que têm dono. O pior é mesmo nas férias de verão. Não têm quem fique connosco e abandonam- nos, e outras vezes porque envelhecemos. Ficamos à mercê da rua e da caridade de alguém. É muito triste!
- Tens toda a razão. As pessoas deveriam pensar bem antes de abandonarem ou maltratarem os animais. Não podemos esquecer que são seres, que sentem como nós e que nos são uteis. Por vezes, até nos dão lições de humanidade. — retorquiu a Rita.
- Pois é. Tu és assim e espero que continues, porque eu gosto das pessoas, brinco e colaboro com elas.
- Mas agora explica-me algo que não estou a compreender.
Por que motivo tu és um cãozito tão falador e atento? - perguntou
a Rita, morta de curiosidade.
- Eu explico-te. Aprendi a falar com um rapaz que conheci há alguns anos. E tu queres saber o que eu sei fazer além de ladrar, vigiar e acompanhar as pessoas?
- Sim, vá la, Bolinha, diz-me.
- Eu sei ler, escrever, contar histórias, — dizia ele — mas também sei servir-me de um telemóvel e trabalhar com um computador.
- Mas tu és um fenómeno! Como é que isso é possível?
- Bem, eu consigo fazer tudo isto porque, apesar de viver na rua, eu acompanhava o meu amigo Tiago para a escola, para o montanhismo, para os jogos de computador, etc. Como ele possuía telemóvel, ensinou-me todos os truques, principalmente quando ligava aos pais e à namorada. Também aprendi algumas coisas sobre jogos interativos. Ele levava-me para a sua garagem e aí até jogávamos juntos, sem os pais saberem. Era mesmo fixe! Organizávamos autênticos campeonatos.
- E por que razão ele não te adotou?
- Porque os pais não queriam animais em casa, por ser um apartamento.
- Ainda bem que eu te conheci. Agora já tens uma casa! Mas o Tiago frequentava que escola?
- A EB 2,3 de Lamego, que fica no sopé da Serra das Meadas. Enquanto ele estava nas aulas, eu ia até à montanha, conversava e brincava com os meus amigos: perdizes, raposinhos, texugos, lebres e até cheguei a conhecer o Parque Biológico da Serra das Meadas. Não gostei nada de ver aqueles animais presos para serem vistos pelas pessoas. Não há nada como a liberdade!...
- Estou sem fala! E o que feito do Tiago?
- O Tiago foi viver para Lisboa e eu aqui fiquei. Ainda bem que tu apareceste.
- Ótimo! Ambos tivemos sorte. É que eu também queria ter um cãozinho e tu acabaste por aparecer na hora exata. Mas prometes que me vais contar mais peripécias da tua vida. Qualquer dia até vamos conhecer e admirar o rio Balsemão e o rio Douro. Estás disposto a isso?
- Bravo! Que grande ideia!...


Isilda Lourenço Afonso
* Professora

13 comentários:

Joana disse...

Eu gostei muito deste texto e também da ilustração.
Beijinhos.

Anónimo disse...

Eu gostei muito desta aula.Especialmente do texto e da visita.
Beijinhos
Beatriz Lázaro

isilda disse...

Fico sensibilizada com o que apreciaram do trabalho de sexta-feira.
A escrita une as pessoas e estreita as relações humanas. Necessitamos de nos encontrar mais vezes, pois estou a gostar de ler os textos que escreveram.
Parabéns a todos vós e, claro,para a vossa professora, Ana Matias.
Aproveitem estes momentos e partilhem as vossas ideias. Só com o confronto de ideias é que aprendemos e progredimos.

Isilda Lourenço Afonso

Anónimo disse...

Adorei este texto! Eu sempre quis ter um cão e sou um feroz defensor dos animais. É verdade, tal como o Tiago, também moro num apartamento e por isso os meus pais acham que um animal é incompatível com o exíguo espaço da nossa casa.
Por vezes venho aqui ao blog espreitar os vossos textos. Os alunos e professores estão de parabéns.

Hugo
Sintra

isilda disse...

Em meu nome e dos outros professores agradeço estas deliciosas palavras. Sabe bem ouvir de alguém que trabalhamos e o que fazemos é apreciado.
Obrigada pelas suas palavras encorajadoras. Continuem a acompanhar os vossos filhos e nunca deem por mal gasto esse tempo que passam com eles e, essencialmente, a escutá-los.

Isilda Lourenço Afonso

Jose Pedro disse...

Eu gostei muito do texto que a sr. professora nos leu.
Acho que esta de parabéns pelo excelente trabalho que fez.

José Pedro

Anónimo disse...

Eu gostei muito do texto que a sr. professora nos leu.
Acho que esta de parabéns pelo excelente trabalho que fez.

José Pedro

Anónimo disse...

Gostei muito desta aula, espero que voltemos a ter outra assim.

José Pedro

samanta disse...

Este texto está deslumbrante.Parabéns Senhora Professora Isilda e também ao Senhor Professor Meireles pelo magnifico desenho.
bejos Samanta

Anónimo disse...

Este texto está deslumbrante. Parabéns Senhora Professora Isilda e também ao Senhor Professor Meireles pelo magnifíco desenho. Beijos.
Samanta 5.6

Anónimo disse...

Fenomenal, este belíssimo trabalho (conto e ilustração)!
Gostei imenso desta aula.
Espero poder recebe-la mais vezes na minha sala de aula.
Parabéns.

Fabiana. 5º6

Anónimo disse...

Fenomenal, este belíssimo trabalho (conto e ilustração)!
Gostei imenso desta aula.
Espero poder recebe-la mais vezes na minha sala de aula.
Parabéns.

Fabiana 5º6

Anónimo disse...

Senhora Professora Isilda, Adorei a aula em que nos leu uma história. Foi uma aula divertida e diferente. Espero voltar a encontrá-la numa próxima aula! Um beijinho da Margarida Sofia